sábado, 16 de junho de 2012

Fingon




Fingon, o Valente, nasceu em Valinor na Era das Árvores e era o primogénito de Fingolfin, filho de Finwë, Alto Rei dos Noldor e de Anairë. Tinha 3 irmãos, Turgon o Sensato, Aredhel a Branca e Arakano (que Christopher Tolkien, devido a algumas incoerências não incluiu no Silmarillion).

Findekano é o seu nome em Quenya, escolhido por seu pai como era costume entre os Eldar e parece composto pelo elemento “Fin” (cabelo) ou talvez “Findë” (hábil) frequente na sua família e muito próprio para a maior Casa dos Noldor e “Kano” (“comandante” ou com as derivações “kanë” valor ou “kanya” valente). No texto “The Shibboleth of Fënaor” do HoME 12, Fingon é descrito “usando o seu longo cabelo escuro em grandes tranças amarradas em ouro” e como sendo de temperamento impetuoso”.

Cresceu na bela Tirion no monte Tuna, onde a luz das Duas Árvores incidia mas também podiam ver as estrelas e o mar, e tinha um contacto tão grande com os filhos do seu tio Finarfin que eram todos unidos e amigos como irmãos; mas era com Maedhros, primogénito de Fëanor, que tinha a mais estreita amizade, apesar dos desentendimentos entre seu pai e o seu orgulhoso tio. Mesmo quando Fëanor foi para o exílio em Formenos e Fingolfin governou os Noldor, o que os afastou um do outro, o forte sentimento de amizade prevaleceu entre ambos.



Quando a grande escuridão caiu sobre Valinor e Fëanor e os filhos proferiam o terrível juramento, rebelando-se contra os Valar, Fingon sentiu-se impressionado com as palavras do tio apesar de pouco o amar e partilhou o seu desejo de ver novas terras. Também Arakano o deve ter apoiado, pois é descrito como “o mais alto e o mais impetuoso dos irmãos”, enquanto Turgon tomava o partido do pai. Quando a vontade de Fëanor prevaleceu entre os Noldor, Fingon (e possivelmente Arakano) tudo fizeram para convencer o pai a partir também para a Terra Média. Assim, por insistência do seu filho mais velho e porque não queria abandonar o seu povo, os Noldor partiram divididos em duas hostes, a de Fëanor e a de Fingolfin, que abandonava Aman com pesar, pois Anairë, sua esposa, não os acompanhou no exílio.

Foi Fingon quem comandou a vanguarda da hoste de seu pai e ao ver que furiosa batalha se travava com os Teleri quando chegou a Alqualondë, pensou que estes últimos os tentavam impedir de partir e mesmo sem saber ao certo o que estava a acontecer correu em socorro da hoste de Fëanor, participando assim na matança de famílias. E ao ouvir nos confins do Reino Guardado a Profecia de Mandos, nem mesmo isso o demoveu nem os da sua Casa, destemidos e orgulhosos como eram; e também por temerem enfrentar o julgamento dos Valar, pois não estavam isentos de culpa. Finarfin e muitos dos Noldor voltaram para Tirion mas a Casa de Fingolfin continuou a avançar e assim chegaram ao agreste Norte de Arda.



Como os barcos não chegavam para todos fazerem a travessia do Helcaraxë, o estreito entre Araman e a Terra Média, Fëanor e a sua hoste zarparam secretamente, pois tinham conservado o domínio da frota roubada aos Teleri, deixando Fingolfin e os seus em Araman.



Ao desembarcaram na Terra Média, Fëanor queimou os barcos para que não fossem buscar a hoste de Fingolfin, que viu a luz ao longe e compreendeu que tinham sido traídos. A amargura foi grande e também Fingon a sentiu, desconhecendo que Maedhros tinha sido contra tão vergonhoso acto e que nele não participara. Mas isso só lhes deu mais determinação e realizaram um feito único: conduzidos por Fingolfin, Fingon, Arakano, Turgon, Finrod e Galadriel ousaram atravessar o crudelíssimo Norte, considerado impassível. Muitos pereceram nessa tormentosa viagem e poucos dos feitos posteriores dos Noldor ultrapassaram essa desesperada travessia; e ao chegarem à Terra Média foram, tal como Fëanor tinha sido, atacados em Lammoth por um exército de Orcs. Os Noldor vinham cansados e foram apanhados desprevenidos, mas Arakano distinguiu-se em batalha e sacrificou-se em defesa do seu povo, que depois perseguiu furiosamente os inimigos. Assim, o seu nome nunca foi formalmente traduzido para Sindar, “mas a forma Sindarin Argon foi por vezes utilizada como um nome pelos Noldor e Sindar em memória do seu valor” (People of Middle-Earth). Assim chegou a hoste de Fingolfin à Terra Média, sentindo grande mágoa pela Casa de Fëanor, quando o Sol se ergueu pela primeira vez como a saudá-los e as flores brotavam à medida que marchavam; e o exército de Fingolfin tocou as suas trompas e desfraldou as suas bandeiras azuis e prateadas, entrando orgulhosamente em Mithrim.



Passaram pelos portões de Angband onde desafiaram Melkor com toques de trompas mas como este não respondeu Fingolfin retirou para o Lago Mithrim, junto da costa Norte e aí montaram o primeiro acampamento. Nenhuma amizade havia agora com a Casa de Fëanor (que já tinha morrido na Dagor-nuin-Giliath),mas alguns dos filhos dele e grande parte da sua hoste estavam arrependidos do incêndio dos barcos e afastaram-se para evitar contendas, não lhes dando as boas-vindas por vergonha.



Fingon, quando soube que Maedhros era refém de Morgoth, viu nisso uma manobra do Senhor Negro que assim tentava tirar vantagem com a divisão dos Noldor e sentiu incendiar-se o coração com a recordação da antiga amizade que os unia, e mesmo desconhecendo que este não o tinha esquecido no incêndio dos barcos resolveu ir resgatar o seu amigo. Com muitos riscos mas ajudado pela escuridão que Morgoth criara, conseguiu chegar junto às Thangorodim e aí, sem ver como podia entrar no bastião do Senhor Negro, entoou um canto que tinham feito em Valinor antes das mentiras de Morgoth terem dividido os filhos de Finwë. Era sua intenção desafiar os orcs e assim descobrir uma maneira de entrar na fortaleza, mas ouviu um eco do seu canto e assim descobriu onde estava Maedhros, agrilhoado num precipício das Thangorodim. Grande foi o desespero de Fingon ao ver que não o podia libertar e este, no seu já longo tormento, pediu a Fingon que contra ele disparasse uma flecha misericordiosa. Não vendo melhor esperança Fingon preparou o arco, chorando, mas no último momento pediu ajuda a Manwë que imediatamente enviou Thorondor, Rei das Águias, que o levou até onde Maedhros estava suspenso. Não o conseguindo libertar, Maedhros voltou a pedir um golpe de misericórdia, mas Fingon decepou-lhe a mão e Thorondor levou-os para Mithrim, onde com o tempo Maedhros sarou do seu sofrimento. Desta forma ganhou Fingon grande renome e o desentendimento que os dividia foi apaziguado, pois Maedhros passou a soberania suprema para a Casa de Fingolfin e de novo unidos os Noldor dividiram reinos entre si, estabelecendo uma forte vigilância sobre as terras de Morgoth.



Fingofin e Fingon reinavam em Hithlum, a Terra da Névoa e a Fingon estava reservado Dor-lómin, que ficava a ocidente das montanhas de Mithrim; mas a principal fortaleza de ambos ficava em Eithel Sirion de onde vigiavam toda a planície de Ard-galen, percorrendo-a mesmo até à sombra das Thangorodrim. Assim formaram um escudo nas terras do Norte protegendo Beleriand, que durante um tempo teve paz e prosperou. Para celebrar esses dias felizes Fingolfin realizou a Mereth Aderthad, a Festa da Reunião, com muitos juramentos de aliança e boa vontade.

Mas assim que reuniu forças Morgoth respondeu enviando um grande exército de orcs que entrou em Beleriand causando grande mal. No entanto Fingolfin, Fingon e Maedhros estavam atentos e perseguiram-nos até ao último; foi a Dagor Aglareb, a Batalha Gloriosa e a partir daí os Príncipes reforçaram a sua vigilância, estabelecendo o cerco de Angband, que durou quase 400 anos.
Ao ver-se cercado Morgoth tentou várias vezes iludir a vigilância dos Noldor e enviou um exército que entrou em Hithlum por ocidente; mas Fingon combateu-os ferozmente e rechaçou-os todos para o mar. E mais tarde Glaurung, o primeiro dos Urulóki, saiu de noite destruindo os campos de Ard-galen, provocando grande terror. Também Fingon, o Valente, o combateu com os seus velozes cavaleiros obrigando-o a fugir, feito pelo qual foi muito louvado.

Com o aparecimento dos Homens em Beleriand e vendo esperança na sua força, os Eldar convidaram-nos a ir viver entre o seu povo, tornando-se aliados na guerra, mas sob o comando dos seus próprios chefes, reforçando assim o cerco a Morgoth. Fingolfin e Fingon tiveram um importante papel na absorção dos Edain ao receberem Hador Lórindol da Terceira Casa, que se tornou Senhor de Dor-lómion e ele e os seus filhos foram os mais poderosos dos capitães Edain; e Fingon juntou-se ao seu pai em Hithlum.

Mas 455 anos depois da chegada dos Noldor à Terra Média Morgoth conseguiu romper o cerco, atacando de forma violenta e inesperada com os seus balrogs, dragões, orcs e rios de chama. Foi a Dagor Bragollach, a Batalha da Chama Súbita, e muitos dos mais fortes adversários de Morgoth foram destruídos ou afastados nos primeiros dias de guerra.

Tão grande foi o ataque de Morgoth que Fingolfin e Fingon não puderam ir em auxílio dos filhos de Finarfin e os exércitos de Hithlum foram repelidos com grandes baixas para as fortalezas de Ered Wethrin. Diante das muralhas de Eithel Sirion caiu Hador a defender Fingolfin, e com ele caiu Gundor, seu filho mais novo, trespassado por muitas setas. Mas devido à altura das montanhas da Sombra que detiveram a torrente de fogo e graças à coragem de Elfos e Homens do Norte, Hithlum permaneceu inconquistada.

No entanto Dorthonion estava perdida, os filhos de Fëanor afastados das suas terras e Fingolfin, ao ver a derrota dos Noldor e não podendo socorrer o seu povo, partiu para as portas de Angband desafiando Morgoth para um combate singular. Assim morreu o mais altivo dos Reis Élficos de Antigamente, mas não sem antes ferir várias vezes o Vala que nunca se curou da dor dessas feridas e que ficou para sempre a coxear.



Fingon, desgostoso, assumiu a soberania dos Noldor mas enviou o seu jovem filho Erenion Gil-galad para os Portos, pois o poder de Morgoth ensombrava agora as Terras do Norte e enchia de terror os campos e florestas de Beleriand.

Morgoth renovou o seu ataque contra Hithlum, valentemente defendida pela Casa de Hador e pelo Rei Supremo, que os combateu apesar da inferioridade numérica. Conseguiram repelir o ataque do Senhor Negro com a ajuda de Cirdan que enviou reforços pelo estuário de Drengist.

Nos anos após a Batalha da Chama Súbita a ameaça de Morgoth aumentou. Mas quando os feitos de Beren e Lúthien se tornaram conhecidos, a esperança voltou a nascer entre Elfos, Homens e Anões, que reuniram toda a força possível, pondo em prática um plano de Maedhros e resolveram atacar Angband, naquela que seria conhecida como a Batalha das Lágrimas Inumeráveis (Nirnaeth Arnoediad).

Maedhros devia atacar com uma grande força, atraindo dessa forma os exércitos de Morgoth e depois Fingon avançaria dos desfiladeiros de Hithlum, pensando assim apanhar o poder do Senhor Negro e fazê-lo em pedaços. O exército de Fingon estava bem oculto do inimigo e contava com a hoste de Dor-lómin e toda a valentia de Húrin e Huor, os homens de Brethil e Gwindor de Nargothrond. E para surpresa de todos, Turgon, irmão de Fingon, abriu o cerco de Gondolin e vinha com um exército de dez mil; e uma grande alegria e esperança nasceu nos corações de todos e o reencontro entre Fingon e Turgon foi alegre. Mas Morgoth sabia tudo o que era feito e projectado pelos seus inimigos pois secretamente mandara muitos homens, os Easterlings, aliarem-se a Maedhros; e estes não só contavam tudo a Morgoth como enganavam Maedhros com falsas advertências.

Assim Maedhros foi atrasado na sua partida e o exército de Fingon, escondido nos vales, aguardava um sinal que não chegava. E Morgoth lançou uma grande força contra os exércitos do Rei Supremo, que não respondeu às provocações a conselho de Húrin. Mas o capitão de Morgoth recebera ordens para atrair Fingon fosse por que meio fosse, por isso foi buscar Gelmir, irmão de Gwindor, e à vista de todos deceparam-lhe as mãos, os pés e a cabeça.

Ao assistir a isso, Gwindor partiu a cavalo infiltrando-se profundamente na hoste inimiga e todo o exército dos Noldor incendiou-se e partiram num ataque súbito, tão violento e rápido que por pouco ruíam os desígnios de Morgoth. Sempre à frente das forças estiveram Gwindor e os elfos de Nargothrond, que passaram as muralhas de Angband e chacinaram os seus guardas, fazendo Morgoth tremer no seu trono. Mas depois foram encurralados e todos chacinados, com excepção de Gwindor, a quem apanharam vivo, pois Fingon não pôde ir em seu auxílio. Morgoth fez sair a hoste de reserva e Fingon foi rechaçado das muralhas de Angband com grandes baixas.

Por fim apareceu o exército de Maedhros e atacaram o inimigo. Mas Morgoth mandou então sair a sua última força: lobos e montadores de lobos, balrogs e dragões, que se introduziram entre as hostes de Maedhros e Fingon, separando-os.

Contudo, nem com lobo, ou balrog ou dragão teria Morgoth alcançado o seu intento se não fosse a traição dos Homens. Pois os Easterlings passaram subitamente para o lado de Morgoth, o que gerou grande confusão e angústia e obrigando a hoste de Maedhros a fugir, desesperados e confusos.



Fingon e Turgon foram atacados por um grande número de inimigos e Fingon foi afastado do exército de seu irmão e de Húrin por Gothmog, Senhor dos Balrogs e Capitão de Angband. Fingon foi o último a cair do seu exército e lutou com Gothmog, mas só quando outro balrog veio por trás e lançou uma faixa de fogo em redor do Rei Supremo, só assim Gothmog conseguiu atingi-lo com o seu machado; e uma chama branca irrompeu do seu elmo fendido. Assim caiu Fingon, Rei Supremo dos Noldor, o Valente e Leal; e Turgon, que conseguiu fugir com a ajuda da Casa de Hador tornou-se, por direito, Rei dos Noldor.




No Silmarilion Erenion Gil-gald é-nos apresentado como sendo filho de Fingon, enviado para junto de Cirdan depois da Batalha da Chama Súbita. No entanto, depois da morte de Fingon na Batalha das Lágrimas Inumeráveis a soberania não passa para o seu filho (como seria de esperar) e podemos ler o seguinte na pág. 210: “… pois Turgon, da poderosa Casa de Fingolfin, tornara-se por direito Rei de todos os Noldor”. Porque deveria ser assim, se Gil-galad fosse filho de Fingon? Certamente ele podia ser Rei de direito. Uma desculpa bastante aceitável é que Gil-galad nesta altura seria ainda muito novo… mas será mesmo essa a razão?
A título de curiosidade, em “The War of the Jewels” e “The Peoples of Middle-Erth” Christopher Tolkien admite que isso foi um erro, ou talvez uma opção sua, pois em diversas tabelas genealógicas Fingon aparece com uma esposa e dois filhos: Ernis (mais tarde Erien) e Finbor. Mas também parece que era intenção do Professor que a soberania dos Noldor passasse para a Casa de Finarfin, a única fiel aos Valar, pois mais tarde a família de Fingon foi retirada da genealogia e Tolkien escreveu uma nota dizendo o seguinte: “Fingon não tivera mulher ou filhos”.

Assim, é natural que a soberania passasse para Turgon, seu irmão. Pelo que tudo indica, Erenion Gil-galad era, juntamente com Finduilas, filhos de Eldalótë e de Orodhreth, filho de Angrod, filho de Finarfin. Gil-galad (o seu nome materno) escapou do saque de Nargothrond ao fugir para a Ilha de Balar para junto de Círdan, e ao terminar a descendência de Fingolfin na Terra Média com a morte de Turgon, a soberania passou naturalmente para ele, bisneto de Finwë. Assim, o grande e valente Fingon, que salvou Maedhros do cativeiro de Morgoth, derrotou Glaurung e morreu a lutar com Gothmog, sofreu a “maldição dos Noldor” e não deixou descendência, passando esta para a Casa de Finarfin, seu tio, e o único que se conservou em Aman e fiel aos Valar. No entanto, tal como Manwë disse ao ouvir que os Noldor sobreviveriam para sempre em cantos: “Assim será! Caros custarão esses Cantos, e todavia, serão bem comprados pois o preço não poderia ser outro. Assim, tal como Eru nos disse, será trazida para Eä beleza nunca antes concebida, e o mal será ainda um bem”.

Sem dúvida Fingon, o Valente, com toda a sua coragem, nobreza e determinação, é uma das mais apaixonantes personagens da Terra Média e muita beleza trouxer a Eä!



Fonte: Portal Tolkienianos